Universidade Latrina (quer dizer, Privada)
Muita coisa aconteceu desde a última vez que postei alguma coisa aqui. Na verdade, nunca tive a paciência e a tenacidade necessária para fazer desse blog um diário. Todos os diários que tentei escrever fracassaram, o que dá uma idéia da compreensão caótica que tenho da totalidade dos acontecimentos da minha vida.
Mas, sem a pretensão de escrever um diário, posso largar aqui o relato de alguns episódios recuperados em meio a um caos de insignificâncias e de incompreensões. Equacionar o conjunto dos acontecimentos que recaem sobre nós não é uma tarefa das mais fáceis. Traduzir o significado aproximado de um acontecimento no conjunto de acontecimentos que compõem a nossa existência é um exercício penoso, incerto, improvável quanto ao êxito, sobretudo porque a mediação indispensável da linguagem exige uma dose considerável de talento e energia (duas coisas de que eu nunca dispus na minha caixa de ferramentas vitais).
Com relutância, cheguei à conclusão de que é inevitável imaginar a existência de um leitor para o que se escreve num blog. Duvido que mesmo num diário encadernado em couro e guardado a mil duzentas e oitenta e quatro chaves a pessoa que escreve possa se desvencilhar da imagem de um leitor para aquilo que está escrevendo. A linguagem exige essa condição de alteridade. Mesmo a linguagem mais íntima, aquela que sustenta o monólogo incessante da consciência, não pode prescindir de um outro que reside na própria interioridade do sujeito. Na Internet, dada a quantidade infindável de escritos publicados, o leitor é hipotético e cada vez mais improvável. Isso afrouxa as rédeas que o interlocutor mantém sobre aquele que fala ou escreve, mas as rédeas estão sempre lá, lassas mas persistentes, para lembrar-nos de que jamais estamos sós, jamais seremos completamente livres do olho inquisidor de um outro real ou imaginário.
* * *
Lembro de ter feito a consideração (não lembro de tê-la escrito) de que 1995 foi para mim o ano que não terminou. No final desse ano, sofri um revés acabrunhante com o fracasso do meu projeto de doutorado. Não era um fracasso improvável, era até mesmo previsível, mas eu fui imprudente ao não impor restrições decididas à minha esperança. Iludi-me, em grande medida. Achei que seria possível que a pós-graduação do curso de Educação da USP acolhesse com louros o meu projetinho burilado com empenho e tanto rigor quanto eu fui capaz de imprimir. A realidade se impôs sem piedade. Não se arromba a porta de um doutorado. È necessário que alguém a abra. E ninguém estava disposto a abrir a porta a um desconhecido. Recebi francas explicações de um professor muito honesto: “Ninguém aqui leu George Steiner e ninguém se mostrou disposto a arriscar-se numa coisa assim. Ninguém larga o chiclete que mastiga há anos e do qual se retira o sumo do prestígio acadêmico por algo de sabor incerto oferecido por um estranho.” – foi mais ou menos isso o que ouvi.
Mas recebi também uma espécie de prêmio de consolação que é, na verdade, um desafio. O dito professor me ofereceu a possibilidade de escrever um pequeno livro de apresentação de George Steiner para uma coleção que ele dirige. De lá para cá, é esse projeto que vêm mantendo o que sobrou da minha auto-estima; a vaga idéia de que posso vir a executá-lo.
A execução do projeto foi adiada. Ainda no fim de 1995 fui obrigado a assumir atividades de trabalho que me absorveram completamente. Trabalho provisório, na verdade; coisa que dura dois, três meses e que acaba deixando o cansaço e a sensação de ter vendido um membro do seu corpo, uma parte do seu cérebro em nome da comida do gato, da taxa de condomínio.
Depois veio o “bico” de prestar uma “consultoria” acadêmica. (Entenda-se: escrevi um trabalho que virou dissertação de mestrado de alguém). Venci rapidamente o escrúpulo de estar contribuindo para a afirmação de um picareta no mundo acadêmico. O tal mundo acadêmico é um imenso celeiro de picaretas. E se um orientador de mestrado é tão negligente com o seu trabalho que se permite enganar (na verdade creio que este também sabe o que está fazendo, apenas não faz questão de por limites à hipocrisia), pouco importa o que eu faça ou deixe de fazer, a picaretagem continuará imperando até que se tome as medidas políticas necessárias para fechar as bimbocas universitárias que pululam sem controle desfigurando a imagem da Universidade.
Finalmente veio a oportunidade de voltar a dar aulas numa dessas bimbocas referidas. Na verdade não foi numa bimboca qualquer mas na rainha altaneira de todas as bimbocas.
Eu estava há muito tempo esperando a oportunidade de voltar a aulas. É algo que faz parte da minha constituição intelectual – o sentido do magistério superior e do que ele representa, o desejo de fazer o trabalho bem feito, de colher os frutos de anos de estudos, de aprimorar a minha formação intelectual estimulado pelo fermento da atividade docente que me faz romper qualquer traço de indolência, me faz sentir produtivo, útil, atuante.
Antes dessa, eu já tinha passado por duas experiências no ensino universitário, ambas em bimbocas de pequeníssimo e de médio porte, que me fizeram constatar o grau de degenerescência do ensino superior privado, a sua submissão ao critério vil do dinheiro, sua total falta de compromisso com o sentido da Universidade, com o conhecimento, com tudo aquilo que possa representar uma barreira ao lucro fácil e rápido. Deu pra perceber
claramente o que são as estruturas institucionais moldadas para burlar os critérios acadêmicos. Não se trata apenas da intenção de uma pessoa, ou de um conjunto de pessoas, mas de uma maquinaria engenhosa feita para esmagar qualquer esforço individual de resistência, seja por parte do aluno, seja por parte do professor. Só que a maioria, a imensa maioria dos professores e dos alunos são engrenagens ativas dessa máquina. Cada um dos seus atos materializa a perversão da maquinaria perversa. Dos que restam, muitos são arrastados, sua vontade esmagada sob o peso da grande estrutura, até que se deixem levar como mortos-vivos.
Eu é que tive a impertinência de abandonar o barco já cheio da lama fétida do mais fétido e pestilento pântano antes de ser tragado. Ou por outra: tentei salvar a minha pele antes que a minha alma fosse arrancada de mim com um saca-rolhas metafísico da perdição forjado no inferno.
Quatro anos sem pisar numa sala-de-aula (como professor). Sentia uma grande falta. O desejo de voltar me fazia acalentar a fantasia de que eu não tinha sido bom o suficiente, de que o meu desempenho anterior não me tinha permitido conquistar os corações e mentes dos meus
alunos para a nobreza do conhecimento desinteressado. A máquina infernal não podia ser onipotente, nem onipresente; eu poderia subvertê-la a partir de uma trincheira instalada na sala de aula, dominando o estreito horizonte composto pelos meus alunos cuja atenção eu pretendia despertar. Idealismo ingênuo? Eu achava que não; achava que era um pragmatismo audaz. Quando surgiu novamente a oportunidade, muni-me de tudo o que vinha elaborando até então. Preparei aulas, preparei o espírito para romper a apatia que eu fatalmente encontraria entre uma massa de alunos cujos cérebros estavam corroídos pela máquina diabólica.
Duas semanas, foi o quanto durou o meu “pragmatismo audaz”. No décimo quinto dia eu me rendi aos fatos. A máquina, a imensa estrutura de produção em massa da estupidez diplomada tem bases sólidas. Lá no topo, na cadeira de comando da bimboca-mor há alguém que sabe disso. A máquina se baseia no interesse material e imediato dos seus cúmplices (professores e alunos). O aluno paga por um diploma que espera receber sem que lhe seja exigido nenhum mérito, a não ser o de cumprir as suas obrigações contratuais, ou seja, pagar regularmente pelo “serviço”. Não lhe foi exigido nenhum mérito intelectual para entrar na universidade. Ele sabe que o vestibular que fez foi uma farsa, que ele não precisou fazer nenhum esforço para ser aprovado. Ele sabe e se mantém em silêncio, sabe que este é um segredo compartilhado entre ele e a bimboca. Ele sabe que sua falta de preparo, o fato de não saber nem mesmo ler e escrever, pode ser mantida em segredo até conseguir o seu diploma. Ninguém está ali para flagrá-lo. O professor que tem diante de si é um agente desse segredo cúmplice. As aulas, as provas, tudo deve ser condizente com a zelosa manutenção desse segredo. Haverá sempre maneiras inventivas de simular o aprendizado através de tarefas simples, que não exijam maior aptidão intelectual. A farsa será mantida.
E aquele professor que parece falar de coisas que não estão no script da farsa? É um desavisado? Ninguém o deixou a par do acordo? Será que ele não tem a sensibilidade de percebê-lo sem que apareça expresso e claro, o que constrangeria a todos os cúmplices?
Bem, eu sabia, eu estava a par, mas achava que poderia minar as cláusulas tácitas do acordo e conquistar a adesão dos alunos. Afinal, o que eles teriam a perder se aproveitassem o fato de estar ali e se dedicassem a aprender alguma coisa? O tempo gasto em aprender seria o mesmo tempo gasto em manter a farsa.
Mas não, a farsa não é algo indesejável. É por ela que os estudantes pagam. É por ela que os professores recebem o seu salário. Ninguém (ou quase, pois há sempre um ou outro “ingênuo” entre os alunos) quer outra coisa. O contrato deve ser zelado, cumprido a qualquer custo. Todos devem fazer a sua parte.
Recusei-me a fazer a minha. Eis tudo. Eu não tenho talento suficiente para jogar no lixo o que aprendi e passar a fazer parte de uma encenação vulgar. Sou um mau ator. Tento ser um professor, coisa de que aparentemente ninguém mais precisa. Mandei tudo às favas. Isso talvez tenha causado o espanto de alguns “colegas”. Todos parecem ter a convicção de que “as coisas são assim mesmo”, “é um jogo e cada um faz a sua parte”, “bobinho!!!”. Fodam-se.
Fodido estou eu, desempregado mais uma vez. Mas com a alma intacta. Se vou conseguir manter o estômago trabalhando com essa minha moral de alienígena, é algo que veremos.
Agora voltei ao projeto do livro. Há muito que ler. Há um longo caminho pela frente e os ponteiros do relógio querem entrar no meu rabo (perdoe a recaída bukowskiana).
Tenho plena convicção de que George Steiner é um autor indispensável para se pensar sobre os descaminhos da educação. Quando foi que começamos a trilhar o caminho que veio dar nesse pântano? Steiner contraria a onda de otimismo oportunista dos que querem fazer da falta de alternativas uma virtude. Há mil maneiras de justificar e corroborar a desordem, a falta de perspectivas da educação. Steiner é a voz impertinente que nos alerta para o otimismo forçado dos que olham o abismo e vêem a aurora dos tempos.
Gostaria de ter o talento, a energia, o vigor necessários para afrontar os inconseqüentes. Não tenho. Resigno-me a emitir um clamor discreto, suficiente para afirmar a minha posição, suficiente para proclamar o meu “não” à barbárie travestida de convescote.
É só, por hoje.
Lembro de ter feito a consideração (não lembro de tê-la escrito) de que 1995 foi para mim o ano que não terminou. No final desse ano, sofri um revés acabrunhante com o fracasso do meu projeto de doutorado. Não era um fracasso improvável, era até mesmo previsível, mas eu fui imprudente ao não impor restrições decididas à minha esperança. Iludi-me, em grande medida. Achei que seria possível que a pós-graduação do curso de Educação da USP acolhesse com louros o meu projetinho burilado com empenho e tanto rigor quanto eu fui capaz de imprimir. A realidade se impôs sem piedade. Não se arromba a porta de um doutorado. È necessário que alguém a abra. E ninguém estava disposto a abrir a porta a um desconhecido. Recebi francas explicações de um professor muito honesto: “Ninguém aqui leu George Steiner e ninguém se mostrou disposto a arriscar-se numa coisa assim. Ninguém larga o chiclete que mastiga há anos e do qual se retira o sumo do prestígio acadêmico por algo de sabor incerto oferecido por um estranho.” – foi mais ou menos isso o que ouvi.
Mas recebi também uma espécie de prêmio de consolação que é, na verdade, um desafio. O dito professor me ofereceu a possibilidade de escrever um pequeno livro de apresentação de George Steiner para uma coleção que ele dirige. De lá para cá, é esse projeto que vêm mantendo o que sobrou da minha auto-estima; a vaga idéia de que posso vir a executá-lo.
A execução do projeto foi adiada. Ainda no fim de 1995 fui obrigado a assumir atividades de trabalho que me absorveram completamente. Trabalho provisório, na verdade; coisa que dura dois, três meses e que acaba deixando o cansaço e a sensação de ter vendido um membro do seu corpo, uma parte do seu cérebro em nome da comida do gato, da taxa de condomínio.
Depois veio o “bico” de prestar uma “consultoria” acadêmica. (Entenda-se: escrevi um trabalho que virou dissertação de mestrado de alguém). Venci rapidamente o escrúpulo de estar contribuindo para a afirmação de um picareta no mundo acadêmico. O tal mundo acadêmico é um imenso celeiro de picaretas. E se um orientador de mestrado é tão negligente com o seu trabalho que se permite enganar (na verdade creio que este também sabe o que está fazendo, apenas não faz questão de por limites à hipocrisia), pouco importa o que eu faça ou deixe de fazer, a picaretagem continuará imperando até que se tome as medidas políticas necessárias para fechar as bimbocas universitárias que pululam sem controle desfigurando a imagem da Universidade.
Finalmente veio a oportunidade de voltar a dar aulas numa dessas bimbocas referidas. Na verdade não foi numa bimboca qualquer mas na rainha altaneira de todas as bimbocas.
Eu estava há muito tempo esperando a oportunidade de voltar a aulas. É algo que faz parte da minha constituição intelectual – o sentido do magistério superior e do que ele representa, o desejo de fazer o trabalho bem feito, de colher os frutos de anos de estudos, de aprimorar a minha formação intelectual estimulado pelo fermento da atividade docente que me faz romper qualquer traço de indolência, me faz sentir produtivo, útil, atuante.
Antes dessa, eu já tinha passado por duas experiências no ensino universitário, ambas em bimbocas de pequeníssimo e de médio porte, que me fizeram constatar o grau de degenerescência do ensino superior privado, a sua submissão ao critério vil do dinheiro, sua total falta de compromisso com o sentido da Universidade, com o conhecimento, com tudo aquilo que possa representar uma barreira ao lucro fácil e rápido. Deu pra perceber
claramente o que são as estruturas institucionais moldadas para burlar os critérios acadêmicos. Não se trata apenas da intenção de uma pessoa, ou de um conjunto de pessoas, mas de uma maquinaria engenhosa feita para esmagar qualquer esforço individual de resistência, seja por parte do aluno, seja por parte do professor. Só que a maioria, a imensa maioria dos professores e dos alunos são engrenagens ativas dessa máquina. Cada um dos seus atos materializa a perversão da maquinaria perversa. Dos que restam, muitos são arrastados, sua vontade esmagada sob o peso da grande estrutura, até que se deixem levar como mortos-vivos.Eu é que tive a impertinência de abandonar o barco já cheio da lama fétida do mais fétido e pestilento pântano antes de ser tragado. Ou por outra: tentei salvar a minha pele antes que a minha alma fosse arrancada de mim com um saca-rolhas metafísico da perdição forjado no inferno.
Quatro anos sem pisar numa sala-de-aula (como professor). Sentia uma grande falta. O desejo de voltar me fazia acalentar a fantasia de que eu não tinha sido bom o suficiente, de que o meu desempenho anterior não me tinha permitido conquistar os corações e mentes dos meus
alunos para a nobreza do conhecimento desinteressado. A máquina infernal não podia ser onipotente, nem onipresente; eu poderia subvertê-la a partir de uma trincheira instalada na sala de aula, dominando o estreito horizonte composto pelos meus alunos cuja atenção eu pretendia despertar. Idealismo ingênuo? Eu achava que não; achava que era um pragmatismo audaz. Quando surgiu novamente a oportunidade, muni-me de tudo o que vinha elaborando até então. Preparei aulas, preparei o espírito para romper a apatia que eu fatalmente encontraria entre uma massa de alunos cujos cérebros estavam corroídos pela máquina diabólica.Duas semanas, foi o quanto durou o meu “pragmatismo audaz”. No décimo quinto dia eu me rendi aos fatos. A máquina, a imensa estrutura de produção em massa da estupidez diplomada tem bases sólidas. Lá no topo, na cadeira de comando da bimboca-mor há alguém que sabe disso. A máquina se baseia no interesse material e imediato dos seus cúmplices (professores e alunos). O aluno paga por um diploma que espera receber sem que lhe seja exigido nenhum mérito, a não ser o de cumprir as suas obrigações contratuais, ou seja, pagar regularmente pelo “serviço”. Não lhe foi exigido nenhum mérito intelectual para entrar na universidade. Ele sabe que o vestibular que fez foi uma farsa, que ele não precisou fazer nenhum esforço para ser aprovado. Ele sabe e se mantém em silêncio, sabe que este é um segredo compartilhado entre ele e a bimboca. Ele sabe que sua falta de preparo, o fato de não saber nem mesmo ler e escrever, pode ser mantida em segredo até conseguir o seu diploma. Ninguém está ali para flagrá-lo. O professor que tem diante de si é um agente desse segredo cúmplice. As aulas, as provas, tudo deve ser condizente com a zelosa manutenção desse segredo. Haverá sempre maneiras inventivas de simular o aprendizado através de tarefas simples, que não exijam maior aptidão intelectual. A farsa será mantida.
E aquele professor que parece falar de coisas que não estão no script da farsa? É um desavisado? Ninguém o deixou a par do acordo? Será que ele não tem a sensibilidade de percebê-lo sem que apareça expresso e claro, o que constrangeria a todos os cúmplices?
Bem, eu sabia, eu estava a par, mas achava que poderia minar as cláusulas tácitas do acordo e conquistar a adesão dos alunos. Afinal, o que eles teriam a perder se aproveitassem o fato de estar ali e se dedicassem a aprender alguma coisa? O tempo gasto em aprender seria o mesmo tempo gasto em manter a farsa.
Mas não, a farsa não é algo indesejável. É por ela que os estudantes pagam. É por ela que os professores recebem o seu salário. Ninguém (ou quase, pois há sempre um ou outro “ingênuo” entre os alunos) quer outra coisa. O contrato deve ser zelado, cumprido a qualquer custo. Todos devem fazer a sua parte.
Recusei-me a fazer a minha. Eis tudo. Eu não tenho talento suficiente para jogar no lixo o que aprendi e passar a fazer parte de uma encenação vulgar. Sou um mau ator. Tento ser um professor, coisa de que aparentemente ninguém mais precisa. Mandei tudo às favas. Isso talvez tenha causado o espanto de alguns “colegas”. Todos parecem ter a convicção de que “as coisas são assim mesmo”, “é um jogo e cada um faz a sua parte”, “bobinho!!!”. Fodam-se.
Fodido estou eu, desempregado mais uma vez. Mas com a alma intacta. Se vou conseguir manter o estômago trabalhando com essa minha moral de alienígena, é algo que veremos.
Agora voltei ao projeto do livro. Há muito que ler. Há um longo caminho pela frente e os ponteiros do relógio querem entrar no meu rabo (perdoe a recaída bukowskiana).Tenho plena convicção de que George Steiner é um autor indispensável para se pensar sobre os descaminhos da educação. Quando foi que começamos a trilhar o caminho que veio dar nesse pântano? Steiner contraria a onda de otimismo oportunista dos que querem fazer da falta de alternativas uma virtude. Há mil maneiras de justificar e corroborar a desordem, a falta de perspectivas da educação. Steiner é a voz impertinente que nos alerta para o otimismo forçado dos que olham o abismo e vêem a aurora dos tempos.
Gostaria de ter o talento, a energia, o vigor necessários para afrontar os inconseqüentes. Não tenho. Resigno-me a emitir um clamor discreto, suficiente para afirmar a minha posição, suficiente para proclamar o meu “não” à barbárie travestida de convescote.
É só, por hoje.


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