19.9.06

MENINOS MUTANTES DE BREJO DAS ALMAS



Cientistas da Universidade Federal do Pará passaram anos estudando o comportamento e o cérebro de Josenildo Pereira Leite. O empenho dos cientistas justifica-se. Josenildo, pedreiro, oriundo da pequena Brejo das Almas, a 340 kms. da capital, e agora morador de uma favela da periferia de Belém, possui uma habilidade rara: uma “visão noturna” super-aguçada, cerca de duzentas vezes mais sensível, em condições de pouca luminosidade, do que o normal da visão humana.
Três anos de testes em que foram observadas as funções cerebrais do pedreiro e o funcionamento do seu aparelho ocular não deram aos cientistas nenhuma pista sobre as causas fisiológicas da visão sobre-humana de Josenildo.
Entre os pesquisadores da UFPA, Josenildo adquiriu a fama de tímido e taciturno. “É quase impossível fazê-lo falar mais do que algumas palavras, embora seja um sujeito dócil, que nunca se recusou a colaborar conosco”, comenta o professor de neurofisiologia, Idelbrando Vieira.
Mas a psicóloga, Maria Elisabeth Monteiro descobriu algo que pode ser decisivo para o desvendamento do mistério. Entrevistando a esposa de Josenildo, Maria Filomena Leite, ela obteve uma informação que o tímido pedreiro não tinha revelado: “Ah, minha filha, lá em Brejo [das Almas], tudo que é homem enxerga no escuro. É tudo que nem esse aqui [referindo-se ao marido], enxerga mosquito de noite a oitenta braças de distância.”
Intrigada, a psicóloga foi, acompanhada de um colega neurofisiologista, até Brejo das Almas entrevistar alguns moradores e descobriu que o relato de Maria Filomena era verdadeiro. Curiosamente, apenas os homens apresentam a extraordinária visão semelhante à de Josenildo.
A psicóloga entrevistou também crianças que encontrou jogando bola num campo de várzea. “Já eram oito e meia da noite e o campo não tinha iluminação artificial. Tivemos que focar com os faróis do carro para enxergar mais de vinte meninos que jogavam bola desde as cinco da tarde”, relatou a psicóloga que, auxiliada pelo seu colega, fez testes preliminares que atestaram a visão super-aguçada dos meninos.
Agora os cientistas trabalham com a hipótese de que a visão extraordinária dos homens de Brejo das Almas não tem uma origem puramente biológica: “Três gerações de homens da comunidade jogaram e ainda jogam bola no mesmo campo de várzea. Como a ‘lida no campo’, como eles dizem, só acaba as cinco da tarde, eles costumam continuar jogando bola noite a dentro, o que talvez tenha levado ao desenvolvimento da capacidade de visão na ausência da luz. Essa agora é a nossa principal hipótese”, relata a psicóloga.
Há pelo menos mais uma evidência que apóia a hipótese apresentada pelos pesquisadores. Durante a visita à comunidade, os pesquisadores descobriram que apenas dois moradores do sexo masculino não têm a visão sobre-humana: um é um rapaz que teve paralisia infantil e se locomove numa cadeira de rodas; o outro é “o doido”, como é conhecido na cidade o deficiente mental Cosme Porfírio da Silva, criado desde tenra idade num quarto exíguo fechado a chave, nos fundos da casa onde mora com a mãe e o padrasto.
De volta à universidade, a psicóloga Maria Elisabeth Monteiro divide agora o seu tempo entre a pesquisa sobre a “visão sobre-humana dos meninos de Brejo das Almas” e uma nova pesquisa.
Ao visitar Cosme, “o doido”, ela observou que havia um par de asas nas costas do rapaz. Elisabeth quer provar que o fato de ele ter se alimentado a vida inteira de mosquitos que capturava no interior do quarto onde vive confinado causou uma mutação genética inédita na história da ciência.(Fonte: AEJC – Agência Escabeau de Jornalismo Científico)